Sobre ateísmo e ética.

Por Maurício Vieira Martins Via Blog Filosofia Ateísta

Será que um ateu pode ser também um “homem virtuoso”? Já no século XVII alguns filósofos importantes discutiam acaloradamente esta questão. Mas por que a dúvida quanto ao caráter daquele sujeito que não professa uma fé?

É que, segundo o discurso religioso então predominante, apenas a crença num Deus pode fazer com que alguém siga as leis da pólis, da sociedade humana organizada. Sem esta crença, afirmavam, estaríamos condenados a matar, a roubar e a tripudiar sobre o outro ser humano.
Referindo-se a este argumento, o filósofo Baruch Espinosa notou argutamente que é bem estranha uma ética que, ao invés de se basear em si mesma, depende do medo do castigo divino para se sustentar enquanto tal! Suspenso este medo, ele perguntava algo ironicamente, será que nos sentiríamos livres para nos transformarmos em assassinos na primeira oportunidade?
Hoje, passados tantos anos deste antigo debate, podemos afirmar com segurança que é um erro tentar medir a eticidade de um sujeito pelo critério de uma adesão religiosa. George W. Bush, presidente dos Estados Unidos, se apresenta como um autêntico cristão, mas isso não o impede de bombardear populações civis que, nas suas palavras, não “escolheram o Deus certo”.
Assim como os religiosos são muito diferentes entre si (há os que são generosos, solidários, e há os que guerreiam e matam em nome mesmo de sua religião), também os ateus formam uma categoria bastante heterogênea. Há os que são solidários, sim, mas há também os que são indiferentes. Ambos, religiosos e ateus, são sobretudo humanos, demasiadamente humanos.
Mas de uma coisa pode-se ter certeza: ninguém em sã consciência pode acusar um outro apenas por ele se abster de uma fé. É pelos seus atos reais, que geram conseqüências sobre os outros seres humanos, que podemos nos pronunciar sobre a eticidade de um sujeito. A experiência humana é uma experiência plural. Em sua riqueza, ela nos deixou grandes pensadores religiosos, como Tomás de Aquino, Agostinho e Hegel, mas nos deixou também grandes pensadores ateus, como Marx, Nietzsche e Freud. Aprendamos a conviver com estas diferenças; elas nos enriquecem.
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