Ser Ateu é Bom?

Por Erick Fishuk Via Sociedade Racionalista

Será que ser ateu é bom? Será que o ateísmo é melhor do que a religião? Isso depende do que você faz da sua vida depois que abandona a crença em deuses e em sacerdotes; portanto, ela pode se tornar melhor ou pior. Mas uma coisa é certa: se a transformação se dá no sentido da preocupação com o outro, do desenvolvimento do senso crítico e da supressão de medos espirituais, aí as vantagens são garantidas.

Primeiro, o que é o ateísmo, afinal? Pouca gente se arrisca a definir, mas aqui vale o seguinte consenso: rejeição da crença em seres ou mundos sobrenaturais e da condução da vida conforme regras ditadas por pessoas que dizem tê-las aprendido por revelação ou iluminação instantânea, portanto: regras sagradas. Não é a ausência de crença, mas a crença numa ausência, ou seja: “ateísmo forte”. Se fosse só ausência de crença, todos os não teístas (taoistas, budistas, confucionistas, fetichistas, indígenas, aborígenes e muitos outros) seriam ateus. Assim, o ateísmo é um fenômeno tipicamente ocidental de negação de antigas tradições consolidadas.

Ora, mas muita gente não matou em nome do ateísmo? Na verdade não. Na Revolução Francesa, teístas ou deístas também mataram, acima de tudo, representantes de um poder absolutista opressor e atrasado, inclusive de seu braço espiritual, a Igreja Católica. Já nos países socialistas, a perseguição foi contra os adversários do regime e da filosofia marxista deturpada que virou doutrina de Estado. Nesses expurgos, muitos comunistas ateus fiéis também foram subtraídos de suas vidas.

Mas o ateísmo não implica a ausência de valores morais? Não necessariamente. Para começar, muitos dos valores ocidentais modernos vieram de fora do cristianismo: liberdade de expressão e pensamento, democracia política, tolerância à fé e a ideias alheias, estima da inteligência e do raciocínio, livre comércio, Estado laico, sexo sem culpa e por aí vai. Houve e há muitos ateus cretinos, mas houve e há também religiosos iguais ou até retos de comportamento. O que define caráter são herança genética e criação familiar e social, e as crenças religiosas, assim como a tranquilidade ou a agressividade com que se defende o ateísmo, podem potencializar o que nele há de bom ou de ruim.

Na verdade, a libertação da religião impele a pessoa a buscar valores mais ligados à sua vontade, à sua felicidade e à sua capacidade ou disposição a dar sua contribuição à humanidade. O ateu consciente aproveita a lacuna deixada para preenchê-la com uma ética construtiva e altruísta. Sendo o ateísmo uma culminância do desenvolvimento da civilização ocidental liberal, é ela que vai ajudar a escolhê-los: respeito ao próximo, desconfiança cética nos dogmas cegos (inclusive no da onipotência da ciência), amor ao conhecimento e ao aprimoramento pessoal, busca de um prazer livre de arrependimentos, mas sem excessos, e conservação do meio-ambiente e da qualidade de vida.

É claro que cada um vai traçar sua própria hierarquia de prioridades, mas é certo que o ateísmo – conservada sua roupagem progressista e democrática original – é muito bom. Ele nos leva a sermos donos de nossa própria consciência, a tomarmos a responsabilidade por nossos próprios sucessos e fracassos e a nunca nos contentarmos com nenhuma fonte de informação, mas aceitarmos sempre comparar opiniões diferentes em busca do correto, verdadeiro e real.

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